A Papisa, a Sacerdotisa



Esta é provavelmente a mais enigmática carta do tarô e a mais difícil de analisar do ponto de vista histórico.
Quando ela não é substituída ,  por um assunto completamente diferente, é denominada de La Papess  (Papa feminino) , la Papessa em italiano e La Papesse em francês .
Nos tarôs mais antigos você não vai encontrar a lua crescente e nem os dois pilares brancos e pretos. As imagens mostram um véu pendurado atrás dela, o livro no colo e a tríplice coroa do papado. Em outros tarôs ela tem a chave papal em vez do livro. Todos esses símbolos, exceto o véu que pode ser meramente decorativo, são símbolos do papado e pode ser muito bem mostrada como um papa do sexo masculino.
A Papisa forma um quartenário, com a Imperatriz, o Imperador e o Papa, posteriormente denominado de Hierofante.
Há uma simetria agradável:  dois governantes seculares, dois  eclesiásticos, dois homens e duas mulheres..
Essas quatro cartas eram sempre colocadas anteriores ao Mago, mas, teve a sua ordem muito diversificada.  Eram elas : Imperatriz, Imperador, Papisa e  Papa.
No tempo da Contra-Reforma, as autoridades da igreja se irritaram e tanto o Papa, como a Sacerdotisa eram considerados assuntos impróprios para permanecerem estampados em cartas de jogatina.
Na região central e do sul da Itália, o controle era mantido pela Igreja e as cartas foram retiradas para apaziguar as autoridades.
Duas, das três variantes de tarôs feitos na França, Bélgica e no tarô de Bensançon, também retiraram essas duas cartas. Depois de 1700, somente o tarô de Marselha manteve essas duas figuras controversas.
Aqui está uma lista das substituições que foram feitas:

  • Tarocco Bolognese - todos os quatro "papi" (Imperatriz, Papisa, o Imperador, o Papa) são substituídos por "mori (mouros)

  • Minchiate de Florença – a Papisa é descartada completamente e o Papa é transformado em "Eastern Imperador".

  • Tarot da Bélgica - a Papisa é substituída pelo capitão espanhol Fracasse, a commedia dell'arte, e o papa é substituído pelo deus pagão Baco, nu, abraçando um barril de vinho! (Presumivelmente, isso é melhor para a moral do público do que uma imagem do papa)

  • Tarot de Besançon - a Papisa se torna a deusa Juno, e o Papa torna-se Júpiter, como rainha e rei do céu. A substituição é preservada no  JJ Tarot Suiço, que é o descendente moderno do Tarô de Besançon.
Estes são os fatos.
No século XV, havia o costume de usar figuras ou abstrações para representar as instituições. A Papisa aparece como uma referência alegórica ao papado e a Igreja em geral, apesar de que, se ela fosse a Igreja manteria esse nome e não o nome de Papisa como sempre foi denominada.
Outra referência é a lenda da Papisa Joana, que também não faz muito sentido. As imagens da época  retratam a Papisa Joana com seu filho e em outras enforcada  pelo seu grave delito. Por este motivo é improvável que o autor do tarô mantivesse essa concepção.
Gertrude Moakley chamou a atenção para uma pequena seita herética , os gugliomitas, nome de seu fundador Guglielma, que atuou em Milão, um século antes das  cartas do tarô serem inventadas. Os gugliomitas acreditavam que o mundo entraria numa nova era e que esta seria anunciada pelo Espírito Santo em forma feminina. Elegeram como um de seus membros a irmã Manfreda  como papa. Manfreda tinha relação com a família Visconti que governou Milão e encomendou as cartas de tarô que chegaram até nós atualmente. A carta da Papisa do Tarô Visconti para mim é uma das mais assombrosas. Suas vestes são de uma freira, mas, ela veste a coroa papal. Sua expressão é serena, enigmática e pensativa e a inclinação da cabeça é uma reminiscência da Madona. Pode ser que o inventor do tarô se simpatizasse com esta seita e fez uma referência a parte feminina de Deus.
A dificuldade com essa idéia é que ela parece sectária. O tarô não era apenas popular em Milão, mas, em toda Itália, França e Suíça. Os símbolos do tarô são de propriedade comum da cultura européia, o que representa que eram universalmente compreendidos como as camadas sociais da época e os princípios cósmicos da mesma.
Eu acredito ( o autor) que a carta da Papisa prova que o inventor do tarô atribuiu uma teologia não convencional em que enfatiza  a polaridade masculina e feminina. Essa  teologia caracteriza os primeiros cristãos gnósticos, que permitiu as mulheres, assumirem  as mais altas posições clericais em seus ritos. Para os gnósticos  a polaridade macho – fêmea eram o símbolo para outras dualidades : o corpo e o espírito, a humanidade e Deus, a escuridão e a luz.

Não podemos nos esquecer do princípio monoteísta do judaísmo, que depois da vinda de Cristo, traz Maria.
 A face feminina da religião reapareceu na adoração popular da Virgem Maria, que agora, mais do que Jesus, tornou-se a mediadora através do qual os oprimidos possam comungar com Deus.. A Papisa do tarô não é a Virgem Maria, são substratos da mente humana como válvulas de escape já que as instituições eram hierárquicas e só prezavam os homens.
Assim talvez,  com isso em mente, podemos rever a posição peculiar da Papisa no tarô de Marselha. O Papa preside a Imperatriz e o Imperador e a Papisa preside o Mago e o Louco, mais humildes que o Imperador e a Imperatriz.
O rosto de Deus é quem sabe de Maria, Mãe de Deus, que re-encarna a Deusa Mãe da época pré-cristã. O  rosto feminino da religião tem uma permanência que persiste por muitas manifestações .High Priestess é realmente um nome muito apropriado para esta lamina, eu acho que, mesmo a partir de uma perspectiva histórica. É uma pena, porém, que o título análogo para o trunfo   V, "Sumo Sacerdote", ficou perdido em algum lugar ao longo do caminho. Os tarôs históricos claramente nos convidam a comparar e contrastar essas duas figuras.. Os escritores modernos, muitas vezes fazem o contraste com a Sacerdotisa e o Mago, uma vez, que rompem o paralelismo que  foi incorporado inicialmente ao sistema do tarô. 

Tradução e compilação do excelente site:
http://www.tarothermit.com/priestess.htm
 

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