O Diabo

O DIABO, PROTAGONISTA NO DISCURSO RELIGIOSO NO FINAL DA IDADE MÉDIA
Rosemeri Vittorassi*
Desde criança todos ouvimos histórias sobre a atuação do Diabo em nosso meio. São crenças arraigadas em nosso cotidiano e que perpassam gerações, sofrem adaptações conforme a época e a cultura, mas não deixam de existir. O imaginário é um terreno pouco conhecido cientificamente, mas extremamente povoado e manipulável, desde a pré-história até a contemporaneidade, e é nesse meio fértil que ele passa a exercer o seu poder. No período medieval, a Igreja Católica procura manter seus fiéis utilizando-se do medo, plantado no imaginário sob várias formas e o Diabo, é apenas uma delas, mas que merece atenção especial, pois “é preciso lembrar que apenas ouvimos uma versão da história. Deus escreveu todos os livros”[1]. O trabalho aqui exposto traz informações sobre esse personagem tão presente na história, e seu papel dentro da Igreja Medieval, cujas informações não mudaram muito nos séculos que se passaram, já que a imagem criada pelos clérigos e artistas do medievo ainda é retratada em obras contemporâneas e surtem ainda grande temor.
Esse trabalho tem por objetivo investigar, ainda que de forma superficial, o papel do Diabo na Igreja Medieval e a relação entre a forma de representação no medievo e na contemporaneidade, visto que ele é um personagem presente e temido em nossa sociedade, entre adultos e crianças. O mecanismo do medo é extremamente eficaz na atuação da Igreja Medieval, e a adaptação desse personagem, que tem praticamente as mesmas qualidades de Deus, à realidade da época é um assunto bastante vasto e de grande importância para a compreensão da atuação da Igreja no medievo e da presença desse personagem em diversos segmentos religiosos da atualidade.
Esse artigo é fundamentado na pesquisa bibliográfica, que embora disponha de vasto material sobre o tema, teve que ser cuidadosamente selecionado, visto que esse trabalho tem caráter histórico e não religioso, gerando uma grande redução nas fontes. Além de livros, revistas e artigos eletrônicos também fazem parte das fontes analisadas.
O QUE O DIABO REPRESENTAVA PRA IGREJA NO FIM DA IDADE MÉDIA?
O Diabo, ao longo da história assumiu inúmeros papéis e formas, mas é no período medieval que ele tem sua mais intensa atuação histórica.
Segundo Le Goff e Schmitt
Ao que parece, a importância do Maligno vai se reforçando globalmente durante o curso da Idade Média. Note-se que o Diabo está quase ausente das imagens cristãs até o século IX. É somente por volta do ano 1000 que encontra uma posição digna dele, quando se desenvolve uma representação específica enfatizando sua monstruosidade e animalidade, e manifestando seu poder hostil de modo cada vez mais insistente. (2002, vol I, p. 319).
A partir do século XI, desenvolve-se uma iconografia específica do Diabo, conservando seu corpo com características antropomórficas, mas essa forma “criada por Deus a sua imagem e semelhança” é pervertida, tornada monstruosa pela deformidade e pelo acréscimo de características animais como presas, chifres, cauda, corpo peludo, etc. Do século XIII em diante ele torna-se mais respeitoso e poderoso do que nunca, aspecto observado inclusive na literatura e na arte onde, os poderes do demônio crescem assustadoramente. Esse crescimento do poderio diabólico era interessante à Igreja Católica, que vinha perdendo terreno devido ao surgimento das heresias, pois ela oferecia a salvação aos “tentados pelo mal”, desde que se abrigassem sob seu manto. A Igreja dependia do conflito entre o bem e o mal para sua existência e quanto mais acirrado esse combate, maior era seu papel na proteção aos fiéis. Em Nogueira, vemos que:
O diabo está solto...Embora acreditando que Jesus havia vindo ao mundo para salvar o homem do poder do Diabo, a Igreja deixou de sustentar que ele estava totalmente vencido. Se assim fosse, não haveria razão para a continuada existência da Igreja. (1986, p. 34)
O Diabo, a partir de então preside a vida da comunidade cristã, em toda a parte se vê o diabólico, o mundo inteiro é por ele invadido e a Igreja mantinha viva a ameaça do Inferno, através de imagens e ritos, sempre lembrando do caráter passageiro da vida terrena, onde o prazer e os excessos deveriam ser sacrificados por um bem superior, que era a salvação na vida após a morte.
É importante perceber ainda a atuação deste ser maligno no mundo, que se inicia com o pecado original, onde aparece pela primeira vez nas escrituras sob a forma da serpente, e se estende até o desenlace escatológico anunciado pelo Apocalipse, ou seja, do início ao fim da humanidade. Assim atribui-se a ele incontáveis atos maléficos, sendo responsável por todas as catástrofes, atitudes condenáveis, tentações da carne, do dinheiro, do poder, etc. O diabo representa assim a oposição às figuras positivas do cristianismo medieval.
Sob a égide da Igreja o fiel poderia se proteger contra a atuação diabólica em sua vida, buscando livrar-se dos pecados e seguindo uma vida regrada pelos sacramentos, jejuns e preces. Objetos sagrados como a hóstia, relíquias, cruz e amuletos diversos também serviam pra manter o maligno à distância, assim como o sinal da cruz.
A Igreja era quem pregava o poder e a onipresença do Diabo, astucioso, hostil e impiedoso, cuja capacidade de malefício contra a humanidade crescia enormemente. O Diabo podia estar em qualquer coisa, em qualquer pessoa, tudo era suspeito e perigoso, uma vez que o maligno é o mestre do disfarce. Ele poderia aparecer como um homem galante ou uma bela mulher, um padre ou até mesmo um anjo. Frente a essa ilimitada capacidade de manifestações do demoníaco, a comunidade cristã se via submergida em um delírio persecutório, presa a um estado mental no qual surgia constantemente a dúvida de identidade dos próprios amigos.
Essa idéia construída na sociedade medieval, da presença constante e praticamente não identificável do Diabo, era uma arma utilizada pela Igreja que, através do medo mantinha fiéis os seus seguidores (e por que não dizer, contribuintes?) e tudo aquilo que ia contra os interesses eclesiásticos era remetido imediatamente à atuação demoníaca.
Nesse contexto a arte iconográfica teve um papel importante como coadjuvante na construção da imagem do Diabo medieval, pois nesse tempo dá-se mais valor às imagens do que aos textos, justamente em razão de sua eficácia pedagógica. Numa sociedade praticamente analfabeta, as imagens
... têm de fato uma tripla função: lembram a história sagrada; suscitam o arrependimento dos pecadores; enfim, instruem os iletrados que, ao contrário dos clérigos, não têm acesso direto a bíblia. Desde então freqüentemente se instituiu nesse ponto, as imagens seriam a “bíblia dos iletrados”. (Le Goff, Schmitt, 2002, p. 599).
É possível, a partir disso, compreender a ênfase dada a imagem do Diabo, principalmente ao seu caráter assustador e deformado, lembrando a figura humana, mas totalmente desfigurado, assim passa-se a mensagem de que o ser humano é suscetível à influência demoníaca e nesse contexto a submissão à Igreja era a única forma de evitar a aproximação do maligno. A representação do Diabo funciona aqui como componente imprescindível ao poder católico bastante fragilizado pelas heresias no final da Idade Média.
Dessa forma instala-se um cristianismo do medo, em que a Igreja dava mais ênfase ao inferno e suas punições do que ao paraíso e suas premiações, tornando Deus e o Diabo, personagens de igual importância, mas que a presença do segundo era mais constante que a do primeiro, já que nesse período a desgraça e as catástrofes eram extremamente presentes e relacionadas com o maligno.
Podemos concluir desse modo que, a Igreja que criou Deus é a mesma que criou o Diabo, e o poder entre eles é alternado conforme a circunstância, cultura ou necessidade. Essa crença atravessou séculos e nos dias atuais ainda pode-se perceber em diversos segmentos religiosos a mesma imagem do Diabo, criada pela Igreja Católica no final da Idade Média. Mas os objetivos de hoje para adoção desse modelo diabólico seriam os mesmos daquela época? Segundo Chartier
Os mecanismos que transformam a força em poderio produzem respeito e terror, lembrando seu expectador a violência originária fundadora de todo o poder. (2002, p. 172)
A Igreja soube muito bem utilizar-se do imaginário popular, instaurando o medo do Diabo como um artifício para a manutenção do controle sobre os fiéis, de sua submissão aos dogmas católicos e sujeição senhores feudais, num sistema consolidado que vigorou por mais de mil anos.
Referências Bibliográficas
AZEVEDO, Antônio Carlos do Amaral. Dicionário de nomes, termos e conceitos históricos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
CHARTIER, Roger. A beira da falésia: a História entre certezas e inquietude. Porto Alegre: UFRGS, 2002.
DELUMEAU, Jean. História do medo no ocidente – 1300-1800 – Uma cidade sitiada. São Paulo: Cia das Letras, 1989.
DUBY, Georges. Ano 1000 ano 2000, na pista de nossos mesdos. São Paulo:UNESP, 1999.
LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Vol I e II. São Paulo: EDUSC, 2002.
MAKOWIECKY, Sandra. Representação: A palavra, a idéia, a coisa. In. Cadernos de Pesquisa Interdisciplinar em Ciências Humanas. S.l: S.e, 2003.
NOGUEIRA, Carlos Roberto F. O diabo no imaginário cristão. São Paulo: Ática, 1986.
Sob a sombra do Diabo. Revista História Viva – Grandes Temas.São Paulo: Duetto, n° 12, ano IV, vol I.
Site http://www.citador.pt/citador.php?cit=18op=88theme=338&firstrec=o, acessado em 20.11.2007.
* Graduanda do curso de História da FACCAT
[1] Samuel Butler, retirado de http://www.citador.pt/citador.php?cit=18op=88theme=338&firstrec=o, acessado em 20.11.2007.
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