Segredos juninos

Xico Graziano
Festa junina, quem diria, nasceu na Europa. Trazida pelos portugueses, tornou-se símbolo do caipirismo nacional. O agricultor gosta, rememora suas origens. Teme, porém, certo preconceito camuflado na sociedade.
As origens do festejo junino remontam às antigas festas pagãs. Fogueiras ardiam para celebrar o início do verão europeu, marcado em 21 de junho. Conhecido como solstício, indica o mais longo dos dias no calendário. No Hemisfério Sul, ao contrário, mostra a noite mais duradoura, entrada do inverno. Assuntos da astronomia.
Durante a Idade Média, no século 6º, a fogueira acabou cristianizada pela Igreja, tornando-se um atrativo da festa de São João Batista. A lenda cristã ensina que, para avisar Maria e obter seu auxílio no parto, sua prima Isabel acenderia o fogo sobre um monte. Vai saber.
Curiosa, no mínimo, também é a origem da 'quadrilha rural', a mais famosa dança das festas juninas. Advinda da 'quadrille' francesa, evoluída, por sua vez, da medieval 'contredance' (country dance) inglesa, a coreografia por aqui chegou no século 19, época em que Paris ditava a moda colonial. Ganhou vestuário campesino e se tornou um fenômeno do folclore brasileiro.
Chega a ser decepcionante descobrir essa influência européia no mundo rural brasileiro. Pesquisando a história dos festejos juninos, pode-se perceber que suas alegorias e manias sofreram forte influência da classe urbana, organizada nos clubes e nas escolas públicas, muito mais que da tradição cabocla propriamente dita. No Nordeste, onde o São João vara a semana, está claro que a cultura urbana se apropria dos valores rurais para criar uma espécie de carnaval caipira, regado a muito forró, cerveja e cachaça. Haja fôlego.
Todos adoram freqüentar uma animada quermesse, esquentando o frio com um bom quentão. Poucos sabem, todavia, que, já depois do final da Idade Média, tais festas, duradouras, utilizadas para se comemorar o aniversário do santo padroeiro da paróquia, haviam sido proibidas pelo imperador Carlos V. Em vão. Poucos ligaram para o édito real, datado de 1531, mantendo o costume, inicialmente religioso, de se deliciar com acepipes e danças campesinas. Pecados veniais.
O quentão está salvo. Segundo o folclorista Amadeu Amaral, autor de O Dialeto Caipira, a palavra tem mesmo origem brasileira, tradicional. Mas cuidado. O gengibre, tubérculo que empresta seu peculiar gosto à deliciosa bebida, se originou na Ásia. Descoberto pelas Cruzadas, difundiu-se na Europa. Menos de um século após o Descobrimento, chegou ao Brasil, onde bem se aclimatou, parecendo planta nativa. Indígenas o denominavam magarataia.
Sem aguardente inexiste quentão. Pinga, essa, sim, é invenção tipicamente brasileira. Fruto da fermentação da garapa da cana-de-açúcar, rica planta importada da Ásia, a cachaça surgiu em engenho da Capitania de São Vicente. Seu consumo se expandiu a tal ponto que ameaçava o comércio da bagaceira e do vinho portugueses, provocando várias tentativas de sua proibição pela Corte. Sem resultados, a metrópole taxou a bebida nativa, transformada em alternativa nacionalista. Em 1756, a cachaça se destacou na contribuição de impostos, exigidos para a reconstrução de Lisboa, arrasada por grande terremoto no ano anterior. Pinga confortando Portugal.
Os quitutes mais abrasileirados, consumidos à farta durante as festas juninas, derivam do milho. Bolo de fubá, milho cozido, pamonha e canjica se misturam nas barracas da quermesse. O cereal, utilizado na alimentação dos povos pré-colombianos, mostra verdadeira origem americana. No Brasil, seu cultivo era conhecido pelos índios guaranis desde antes da chegada dos europeus. Na senzala, o grão amarelo virava polenta, munguzá, broa. Época dura.
Segredos interessantes se escondem na história das festas juninas. Encruados nas comidas e bebidas, nas danças e alegorias, aguçam a curiosidade. Os trajes típicos caracterizam um estilo de vida. Veste-se o caipira com chapéu de palha, calça remendada, camisa xadrez, vestido florido, tranças nos cabelos. Coisa da roça, gente de outrora.
Cuidado. Esse folclore deixa desconfiado agricultor sestroso. É bem verdade, sim, que na árdua labuta de antanho as precárias vestimentas pouca qualidade ostentavam. Trabalhar de sol a sol arrebenta qualquer roupa, para não falar do chapéu suado. Mas essa reprodução tardia do caipira, cultivada nas festas juninas, pode carregar um toque depreciativo sobre a cultura rural. O perigo do Jeca Tatu.
Há quem pense que o agricultor brasileiro seja atrasado, para não dizer ignorante. Essa idéia advém, principalmente, da caricatura explorada pelo personagem de Mazzaropi nos populares filmes dos anos 60, que marcaram fortemente a opinião pública. Andar desajeitado, calça 'pula-brejo', português errado, ar ingênuo, assim cravou o grande artista o estereótipo do caipira. Na época em que a forte urbanização, qual ribalta, atraía os sonhos do progresso, floresceu uma cisma contra o modo de vida rural.
Ora, o verdadeiro folclore cultiva a tradição, misturando história com cultura. Em todo o mundo, os povos homenageiam seu passado, valorizando as origens da sociedade moderna. Afinal, o berço consolida a maturidade do futuro. Bem-vinda a diversão junina, se estimula a reverência aos pioneiros e obriga à reflexão do presente. A festa fica bonita.
Mas, por favor, cuidado na tinta. Pintar o dente das crianças de preto, para simular na quadrilha sua banguelice, querendo indicar semelhança com a gente do campo, passa do ponto. Deprecia a dignidade do agricultor, deseduca a sociedade.
Caipira, sim, com muito respeito.
Xico Graziano, agrônomo, é secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. E-mail: xico@xicograziano.com.br Site: www.xicograziano.com.br
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